Moradores de áreas alagadas relatam problemas de saúde e infraestrutura causados por cheia, em Manaus

AMAZONAS O nível do Rio Negro excedeu a cota máxima de 29,33 metros prevista para a cheia deste ano, segundo a medição da régua do Porto de Manaus. Com isso, famílias que moram às margens de igarapés são prejudicadas com a quantidade de lixo levado pela enchente até a porta das casas. Uma das maiores preocupações dos moradores é a quantidade de doenças que podem ser causadas, além da alagação dentro das moradias.

Na última terça-feira (18), o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) informou que o Rio Negro pode ultrapassar a sétima maior cheia já registrada em 117 anos. O nível está 6 cm acima da cota máxima prevista para 2019. O órgão disse que o começo da vazante pode ser tardio por conta do volume de chuvas na foz do Rio Negro. Por conta das inundações, a capital está em situação de emergência.

A dona de casa Izabela Costa, de 27 anos, mora em frente a uma parte do canal fluvial do “Igarapé do 40”. A moradora disse que, na época de cheia, o lixo desce para a frente da casa dela.

“Isso tudo acontece por conta das pessoas que jogam lixo dentro da água lá em cima. Se eles não jogassem, não aconteceria isso. Eu me preocupo porque isso pode prejudicar nossa saúde. Meu filho de três anos e minha filha mais velha já caíram dentro do igarapé”, disse.

Preocupada com os efeitos da cheia, a dona de casa afirmou que ficou surpresa com o nível da água neste ano.

“Há dois anos eu moro aqui, e nunca aconteceu isso, mas eu creio em Deus que isso logo vai passar. Quem sofre é a gente. Já liguei para a Defesa Civil, disseram para aguardarmos e até agora nada, nenhuma resposta. Falta pouco para entrar em casa. Se der uma chuva bastante forte, minha casa alaga de vez”, lamentou.

A mulher contou ainda que as pontes improvisadas foram feitas nas proximidades por familiares. Segundo ela, uma equipe da Defesa Civil esteve no local há três meses apenas para numerar as residências como uma espécie de “marcação”, para algo ser feito no futuro.

“Muitos olham pra gente e nos condenam: ‘Essas pessoas são aquelas que já saíram e voltaram’. Não é isso. Nós somos as pessoas novas que chegaram agora. Eu falo por mim, se eu tivesse condições, eu não estaria na igarapé arriscando a minha saúde e da minha família”, finalizou.

Em nota, a Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil (Sepdec) informou que a local não consta como uma área alagável e, por isso, não foi incluída na abrangência de cadastro do SOS Enchente 2019. Apesar não terem sido registradas ocorrências ou chamados por meio da Central de Atendimento da Defesa Civil 199, o órgão enviará uma equipe para realizar visita técnica no local.

Já no bairro Raiz, Zona Sul de Manaus, moradores chegaram a sair de suas casas após a água tomar conta de uma parte da Rua Daniel Sevalho. É o caso do serralheiro Alzier de Souza, de 66 anos. Ele contou que apenas uma ponte de madeira foi feita para auxiliar os moradores do local.

“No ano passado, nem encheu dessa maneira, a água foi só até certo ponto. Minha casa está toda alagada, embaixo d’água, e tive que alugar uma casa em outra rua, onde moro e trabalho com serralheria. Trabalhar com eletricidade dentro d’água é difícil, tirei meu material todo de dentro de casa. Mandaram ir na quarta-feira pra eu tentar receber o auxílio-aluguel”, disse.

Assim como o serralheiro, o vizinho dele, o auxiliar de pedreiro Aveilson Cordeiro, de 39 anos, também teve que sair de casa. Porém, por falta de condições de alugar um imóvel, ele precisou morar em residência de familiares.

“A mesma situação do vizinho: minha casa está embaixo d’água. Tive que ir morar na casa da minha sogra com minhas filhas e esposa. Não recebi nenhum auxílio dos órgãos competentes”, disse.

No bairro Betânia, também na Zona Sul, moradores da Rua do Aterro relataram situações semelhantes. A dona de casa Sandriane Medeiros, de 19 anos, também teve a casa tomada pela água, e não consegue mais entrar no local. Agora, ela mora com a filha e o marido na casa da tia.

“Até agora o que fizeram pela gente foi apenas uma ponte, mas pela metade. O restante foi construído pelos moradores para as crianças saírem para o colégio. Está tudo alagado, a gente tem que tá fazendo esforço para passar com as crianças que, inclusive, estão doentes com feridas por conta da água que é suja”, explicou.

Moradores relatam doenças

A artesã Elaine Miranda, de 58 anos, alegou estar com alergia pelo corpo por conta da água encanada ter sido contaminada pelo igarapé poluído em frente à residência. A mulher disse que foi até a sede da Defesa Civil, mas agentes pediram que ela esperasse.

“Já fui ao médico, passei remédio e a doença não sai. Acredito que seja da água, porque os canos estão todos embaixo dessa enchente”, finalizou.

Ainda no bairro Betânia, a dona de casa Socorro Vasconcellos, de 52 anos, que mora há mais de 30 anos na Rua do Aterro, disse que os netos adquiriram feridas pelo corpo em decorrência da água contaminada. A casa dela também já foi afetada pela enchente.
“Dentro das casas, está tudo no fundo d’água. A gente não quer uma ponte ou auxílio-aluguel. O que a gente quer é sair dessa situação. O que esá dando doença é a água, com esses bichos. às vezes, aparece até rato morto. Cada dia que passa aumenta o nível, a gente acorda pisando na água”, relatou.

Auxílio Aluguel

Na última semana, a Prefeitura de Manaus informou que mais de de 1,8 mil famílias afetadas pela cheia do Rio Negro em Manaus começaram a receber o benefício de Auxílio Aluguel. O pagamento será realizado em duas parcelas e o atendimento será dividido conforme o bairro de cada família cadastrada.

No entanto, os moradores informaram que não foram cadastrados por técnicos durante a operação “SOS Enchente 2019”.